segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para Michelle

Já reconheço o seu medo, suas fantasias e seu grito contido na busca pela paz e pelo prazer. É o meu... Somos o mesmo grito que ecoamos nas nossas noites boêmias e intensas. Nossa volúpia e brilho nos fazem completos, pendurando instantes, mas alimentando temores a cada evolução da nossa intimidade.

A verdade está no fundo dos nossos olhos, mas tememos os espelhos. Todo o espelho é perigoso, nos arranca máscaras. Teimamos em mantê-las, usando discursos vãos, nos defendendo de espelhos antigos já estilhaçados por tempestades, ora suavizadas pela opacidez de lembranças, ora reforçadas pelo vácuo de agonias passadas.

Demasiadamente divinos, anestesiando a frialdade do mundo com nossos beijos, abraços, toques de nariz e testa, entrelaçando dedos dos pés, embaraçando cabelos e pensamentos com cafunés, risadas sonoras, suspiros silenciosos e palavras doces. Olho no olho, a ponto de fundirmos pupila com pupila num beijo inédito, molhando nosso ímpeto de invadirmos a nós mesmos, engolindo tudo no outro que nos falta para uma derradeira fusão.

Demasiadamente humanos, desejando a nossa ausência mútua para que possamos sentir-nos distantes, exercitando a nossa própria busca, planejando com minúcias o próximo e esperado encontro. Preparando surpresas que nos causem euforia, comoção e algumas lágrimas. Aprendendo a tornar-nos buscadores das nossas verdades mais temidas, para que possamos lidar com elas de uma forma leve, evitando possíveis desencontros.

Demasiadamente animais, alimentando o nosso fogo, queimando o ar das nossas narinas, respirando-nos fundo, fundindo todos os nossos cheiros, nos desejando como bichos no cio, vorazes, famintos e violentos, culminando no gozo que silencia os corpos até atingirmos o instante mágico onde o pensamento cala.

Demasiadamente tímidos, ao querermos dizer tanta coisa. Falarmos muito sem ouvir um ao outro, nos agradarmos com gentilezas sem limites... e calarmos por longos minutos, num silêncio constrangedor, tenso e necessário.

Demasiadamente espirituais, a ponto de planejarmos encontros durante o sono, enquanto dormimos num abraço inconsciente.

Uma harmonia perfeitamente desarmoniosa que desenha o início de um caos necessário e o desejo de um final sem final.

by Dé for Mi

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Nome completo

Eis que pela primeira vez começo a me preocupar com o meu nome completo.
Minha imagem perante as pessoas continua a mesma. Sou transparente, espontâneo, às vezes inconsequente, mas... aprendi a medir melhor as palavras e guardar alguns pensamentos para mim.
Já o nome completo... Este pode nos criar problemas. Num mundo em que tudo o que escrevemos e falamos pode ser instantaneamente publicado na internet, devemos cuidar dos nossos nomes completos.
Esses dias redescobri um texto antigo, publicado nesse blog, onde cometi alguns desabafos um tanto polêmicos. Talvez dignos de serem lidos por navegantes curiosos, mas poderiam soar agressivos a desconhecidos da minha pessoa. O texto era uma das minhas melhores produções, escrito num momento em que a minha alma fervilhava. Nele revelei algumas fraquezas só conhecidas por alguns afetos, companheiros de bar, amigos fiéis...
Creio que toda pessoa "conectada", em algum momento de lazer, após esgotar a sua atividades produtivas em frente à tela do seu computador, já deve ter se flagrado escrevendo seu próprio nome no google. Acabei por cair nessa armadilha e, para minha surpresa, lá estava, associado ao meu nome completo (sim, pré nome, nome, e sobrenome), um texto chamado "apontamentos para uma relação com o mundo bla bla bla"... Era o tal texto denso (já retirado do blog, viu!) ao qual me referi. Li e reli, me identificando prontamente com a motivação que tive para escrevê-lo, revivendo algumas mazelas de anos passados. Doí por dentro, não só por sentí-lo novamente, mas por ter sido obrigado a retirá-lo do ambiente público em que estava exposto.
Penso que, quando nos tornamos um pouco mais populares, seja por conta do trabalho, das relações ou da proliferação das informações que se "teletransportam" (não navegam mais, navegavam quando conectávamos a 28Kbps), o fardo de sustentar um escrito frágil, que revele o nosso íntimo, seja sobre o que for, pode colocar o nosso nome completo em risco. Não que eu não tenha o direito de expressar as minhas inquietações mas, por preservação, algumas delas devo restringir à mim, às minhas paredes e aos meus afetos confiáveis.
Para mim isso explica o fenômeno que pejorativamente chamamos de "fake", o que não é nada mais do que poetas chamam de heterônimos...

(é chegada a hora de criar alguns)

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Pedro Augusto da Silva Weiss
(hei de achar um melhor)