Já reconheço o seu medo, suas fantasias e seu grito contido na busca pela paz e pelo prazer. É o meu... Somos o mesmo grito que ecoamos nas nossas noites boêmias e intensas. Nossa volúpia e brilho nos fazem completos, pendurando instantes, mas alimentando temores a cada evolução da nossa intimidade.
A verdade está no fundo dos nossos olhos, mas tememos os espelhos. Todo o espelho é perigoso, nos arranca máscaras. Teimamos em mantê-las, usando discursos vãos, nos defendendo de espelhos antigos já estilhaçados por tempestades, ora suavizadas pela opacidez de lembranças, ora reforçadas pelo vácuo de agonias passadas.
Demasiadamente divinos, anestesiando a frialdade do mundo com nossos beijos, abraços, toques de nariz e testa, entrelaçando dedos dos pés, embaraçando cabelos e pensamentos com cafunés, risadas sonoras, suspiros silenciosos e palavras doces. Olho no olho, a ponto de fundirmos pupila com pupila num beijo inédito, molhando nosso ímpeto de invadirmos a nós mesmos, engolindo tudo no outro que nos falta para uma derradeira fusão.
Demasiadamente humanos, desejando a nossa ausência mútua para que possamos sentir-nos distantes, exercitando a nossa própria busca, planejando com minúcias o próximo e esperado encontro. Preparando surpresas que nos causem euforia, comoção e algumas lágrimas. Aprendendo a tornar-nos buscadores das nossas verdades mais temidas, para que possamos lidar com elas de uma forma leve, evitando possíveis desencontros.
Demasiadamente animais, alimentando o nosso fogo, queimando o ar das nossas narinas, respirando-nos fundo, fundindo todos os nossos cheiros, nos desejando como bichos no cio, vorazes, famintos e violentos, culminando no gozo que silencia os corpos até atingirmos o instante mágico onde o pensamento cala.
Demasiadamente tímidos, ao querermos dizer tanta coisa. Falarmos muito sem ouvir um ao outro, nos agradarmos com gentilezas sem limites... e calarmos por longos minutos, num silêncio constrangedor, tenso e necessário.
Demasiadamente espirituais, a ponto de planejarmos encontros durante o sono, enquanto dormimos num abraço inconsciente.
Uma harmonia perfeitamente desarmoniosa que desenha o início de um caos necessário e o desejo de um final sem final.
by Dé for Mi
segunda-feira, 20 de dezembro de 2010
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