segunda-feira, 6 de junho de 2011

Percepção de espiritualidade do meu filho de 4 anos

(Nícolas) - Pai, dentro da nossa cabeça só tem osso e sangue.
(Eu) - E onde você acha que NÓS estamos?
(Nícolas) - Estamos dentro do corpo e da cabeça, junto com o sangue, carne e osso, mas também estamos fora.

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Para Michelle

Já reconheço o seu medo, suas fantasias e seu grito contido na busca pela paz e pelo prazer. É o meu... Somos o mesmo grito que ecoamos nas nossas noites boêmias e intensas. Nossa volúpia e brilho nos fazem completos, pendurando instantes, mas alimentando temores a cada evolução da nossa intimidade.

A verdade está no fundo dos nossos olhos, mas tememos os espelhos. Todo o espelho é perigoso, nos arranca máscaras. Teimamos em mantê-las, usando discursos vãos, nos defendendo de espelhos antigos já estilhaçados por tempestades, ora suavizadas pela opacidez de lembranças, ora reforçadas pelo vácuo de agonias passadas.

Demasiadamente divinos, anestesiando a frialdade do mundo com nossos beijos, abraços, toques de nariz e testa, entrelaçando dedos dos pés, embaraçando cabelos e pensamentos com cafunés, risadas sonoras, suspiros silenciosos e palavras doces. Olho no olho, a ponto de fundirmos pupila com pupila num beijo inédito, molhando nosso ímpeto de invadirmos a nós mesmos, engolindo tudo no outro que nos falta para uma derradeira fusão.

Demasiadamente humanos, desejando a nossa ausência mútua para que possamos sentir-nos distantes, exercitando a nossa própria busca, planejando com minúcias o próximo e esperado encontro. Preparando surpresas que nos causem euforia, comoção e algumas lágrimas. Aprendendo a tornar-nos buscadores das nossas verdades mais temidas, para que possamos lidar com elas de uma forma leve, evitando possíveis desencontros.

Demasiadamente animais, alimentando o nosso fogo, queimando o ar das nossas narinas, respirando-nos fundo, fundindo todos os nossos cheiros, nos desejando como bichos no cio, vorazes, famintos e violentos, culminando no gozo que silencia os corpos até atingirmos o instante mágico onde o pensamento cala.

Demasiadamente tímidos, ao querermos dizer tanta coisa. Falarmos muito sem ouvir um ao outro, nos agradarmos com gentilezas sem limites... e calarmos por longos minutos, num silêncio constrangedor, tenso e necessário.

Demasiadamente espirituais, a ponto de planejarmos encontros durante o sono, enquanto dormimos num abraço inconsciente.

Uma harmonia perfeitamente desarmoniosa que desenha o início de um caos necessário e o desejo de um final sem final.

by Dé for Mi

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Nome completo

Eis que pela primeira vez começo a me preocupar com o meu nome completo.
Minha imagem perante as pessoas continua a mesma. Sou transparente, espontâneo, às vezes inconsequente, mas... aprendi a medir melhor as palavras e guardar alguns pensamentos para mim.
Já o nome completo... Este pode nos criar problemas. Num mundo em que tudo o que escrevemos e falamos pode ser instantaneamente publicado na internet, devemos cuidar dos nossos nomes completos.
Esses dias redescobri um texto antigo, publicado nesse blog, onde cometi alguns desabafos um tanto polêmicos. Talvez dignos de serem lidos por navegantes curiosos, mas poderiam soar agressivos a desconhecidos da minha pessoa. O texto era uma das minhas melhores produções, escrito num momento em que a minha alma fervilhava. Nele revelei algumas fraquezas só conhecidas por alguns afetos, companheiros de bar, amigos fiéis...
Creio que toda pessoa "conectada", em algum momento de lazer, após esgotar a sua atividades produtivas em frente à tela do seu computador, já deve ter se flagrado escrevendo seu próprio nome no google. Acabei por cair nessa armadilha e, para minha surpresa, lá estava, associado ao meu nome completo (sim, pré nome, nome, e sobrenome), um texto chamado "apontamentos para uma relação com o mundo bla bla bla"... Era o tal texto denso (já retirado do blog, viu!) ao qual me referi. Li e reli, me identificando prontamente com a motivação que tive para escrevê-lo, revivendo algumas mazelas de anos passados. Doí por dentro, não só por sentí-lo novamente, mas por ter sido obrigado a retirá-lo do ambiente público em que estava exposto.
Penso que, quando nos tornamos um pouco mais populares, seja por conta do trabalho, das relações ou da proliferação das informações que se "teletransportam" (não navegam mais, navegavam quando conectávamos a 28Kbps), o fardo de sustentar um escrito frágil, que revele o nosso íntimo, seja sobre o que for, pode colocar o nosso nome completo em risco. Não que eu não tenha o direito de expressar as minhas inquietações mas, por preservação, algumas delas devo restringir à mim, às minhas paredes e aos meus afetos confiáveis.
Para mim isso explica o fenômeno que pejorativamente chamamos de "fake", o que não é nada mais do que poetas chamam de heterônimos...

(é chegada a hora de criar alguns)

Assina

Pedro Augusto da Silva Weiss
(hei de achar um melhor)

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crônica sobre a sincronicidade dos jogos de azar e a sorte de Ana Luíza.

Ana Luíza não sabia mais o que fazer. Após três anos desempregada, já não conseguia mais sustentar os seus trinta gatos. Vivera durante os últimos anos dos aluguéis de três pequenos apartamentos que acabara de perder em dívidas de apostas em jogo do bicho e rodadas de baralho regadas a muita cachaça. Também se viciara em apostas de corrida de cavalo e rinhas de galo. A jogatina a arruinara. A cada mês morriam alguns gatos por falta de ração e vacinas. Sua família não a procurava mais. Nem Augusto, seu mais fiel amigo e confidente lhe poupou: escafedeu-se!
Ana Luíza morava numa pequena casa, a última maloca da rua da sorte, número 133. Seu pátio era o matagal que antecipava o precipício do morro. Sim, ela morava no morro. Subira o morro por opção. Embora tivesse sido proprietária daqueles três apartamentos muito bem localizados na cidade, só no morro poderia criar seus gatos e fazer as suas apostas sem se preocupar com as fofocas da vizinhança.
Foi em agosto, mês em que a sua ruína se estabeleceu, que aconteceu um fato inesperado: morreram, numa tacada só, 23 gatos. Nesta mesma noite, Ana Luíza havia sonhado com gatos, galos de rinha e cavalos de corrida. Além disso, percebera que a soma dos algarismos da casa era igual ao número que restara de gatos vivos e que o nome da rua onde morava era muito inspirador para uma aposta expressiva.
O leitor deve estar pensando que Ana Luíza correu para o jogo do bicho para fazer uma aposta milionária e ganhou o prêmio que resolveu a sua vida...
Não, não foi nada disso que aconteceu. De fato, ela reuniu tudo que lhe restara de dinheiro, números e dados suficientes para apostar. Porém, ao sair de casa e abrir a caixa de correios, se deparou com um telegrama do seu banco informando que havia sido depositado na sua conta a considerável quantia de três milhões de reais. Ana Luíza correu ao banco. Ninguém, do caixa ao gerente, soube lhe informar sobre origem do depósito.
Até ontem Ana Luíza não sabia se tinha sido erro de sistema, alguma herança de um membro distante da família ou mera obra da sorte. O fato é que resolveu todos os seus problemas. Tratou os gatos, reformou a casa, comprou três bons apartamentos para alugar, aplicou na bolsa e voltou a jogar. Até que hoje de manhã tocou a sua campainha. Ana Luíza arredou discretamente a cortina da janela. Era o seu amigo Augusto. Estava vestido de branco e trazia nos braços um gato preto. Pensou: seria Augusto um novo milionário autor de tamanha caridade, ou apenas o amigo mais interesseiro?
Ana Luíza decidiu não atender.

segunda-feira, 6 de outubro de 2008

HOJE

Acordo com o som da minha voz chamando meu próprio nome no ouvido. Abro os olhos ainda noite dentro de meu apartamento. Dia lá fora. As pessoas transitam frenéticas embaixo do sol, vulneráveis... Eu, dentro de minha fortaleza, meu centro, minha paz.

Sanduíche de presunto e queijo quente, raio de sol na persiana, cheiro de sossego com leite, desejo de permanecer mudo durante o dia. Vontade de casa. Idéias matinais, reflexos do sono...

Levo o corpo até o chuveiro, água morna. Boca na pia, olhos no espelho. Escova de dente, água fria. Já não sou o mesmo. Aroma de café quente, sabor da luta.
Desodorante roll-on, perfumes artificiais. Perfume traz boas idéias, boas sensações... Boas lembranças. Vontade de estar sempre assim, perfumado. Vontade de arrumar a casa. Passo o pano, varro o tapete, limpo a pia. Idéias de progresso, de liberdade. Limpeza traz bons fluídos. Fluídos de evolução, de sair à rua e vencer.

Sair à rua e vencer?

Saio. A rua me vence, recordo dos tempos de fila do buffet do meio-dia. Hora do intervalo, vinheta do noticiário do almoço. Homens de gravata falando de motivação, trabalho em equipe, metas, comentários sórdidos sobre o “patrimônio” da tia do puteiro da moda. Mulheres falando em liberdade, conquista do poder, traição, o quanto sabem administrar emocionalmente as suas filas que andam. Frustrações quase explícitas em diálogos vazios...

O sol me salva. Respiro e me transponho. Saio e vou para o mar, para a serra. Pego o avião e o barco. Ouço o vento cantando nos meus ouvidos e um estrondo de buzina de automóvel que me avisa onde estou. Um alerta! Fique aqui:
Olhe para os lados, esteja atento. Leia os jornais, vote consciente, cuide da saúde, economize, pague o doc na data do vencimento, faça academia, faça silêncio depois das dez, se beber não dirija, tenha fé, leia “O Segredo”, não reaja aos assaltos, mantenha distância, mantenha paz, seu coração merece, conheça as leis, doe seu lugar para os idosos, seja caridoso, doe sangue, não se atrase, o tempo voa, invista, insista, não desista, atravesse na faixa, desligue o gás, não esqueça as senhas, não fure a fila, vacine-se, previna-se, use camisinha, desligue o celular, mantenha o celular ligado, anote para não esquecer, seja profissional, não seja fraco, a vida é dura e curta.

Seja...
Feliz...

Antes que alguém me aborreça, corro pra casa procurando uma distração. Não quero anotar nada, tampouco ouvir qualquer vocativo.

Chaveio a porta, desligo o celular.

domingo, 5 de outubro de 2008

Morphina

Hoje acordei sem nada,
Não me doíam os olhos, nem a cabeça.
Nem um cheiro era percebido pelas minhas narinas
Não senti saudades de ninguém nem de mim
A fome não me perturbou
Nenhum sentimento me distraiu
E aqui na cama permaneci de olhos abertos e cegos
Sem que isto me causasse algum desconforto.

Uma pequena história de carnaval

Ele, o sossego em pessoa. Regras da rotina cumpridas com rigor. Poucos amigos, família pequena.
Ela, espírito fugaz, ágil, ativa e sociável. Muitos amigos e família com características italianas.
Ele era duro. Embora jovem, sabia medir cada palavra e cada ato era meticulosamente pensado. Sua educação e pontualidade ultrapassavam o padrão europeu.
Ela, com a sua alma latina, impulsiva e emocional, não conseguia conter qualquer pensamento que quisesse se manifestar.
Ele morava só, vivera apenas um noivado morno que durara pouco mais de um ano.
Ela, embora com quase trinta anos, ainda dividia apartamento com amigas e tivera alguns namorados, mas nunca se apegara a nenhum.
Ele havia decidido tirar férias em fevereiro para finalmente conhecer a Bahia. Reservara um quarto numa pousada em Arraial d’ajuda onde passaria o carnaval.
Ela juntara uma turma de amigos para passar suas férias transitando pelas mais belas praias da Bahia.

Trocaram olhares em um dos quiosques de beira de praia no Arraial.
Ao som das batidas dos tambores e da alegria da folia, ele, impulsivamente secou um copo de caipirinha e foi em direção à ela. Sem medir palavras nem atos, agiu, pela primeira vez na vida, com um instinto primitivo que antes jamais teria experimentado.
Ela gostou.
Seguiram juntos despretensiosamente durante os próximos dias.
Ele experimentou banhos de chuva, mergulhos noturnos e os maiores excessos que se pode cometer no carnaval.
Ela deixara a turma de amigos seguir viagem e se mudara para a pousada onde ele estava.
Foram dias intensos onde quase não se dormia.
Ele e ela cometeram todos os atos que o amor pode permitir em um curto espaço de tempo.
Trocaram contatos. Combinaram o próximo encontro.

Ele voltou para São Paulo na quarta-feira de cinzas.
No outro dia ela chegaria em Brasília.
Ele tentou por alguns meses contato por e-mail, mas não obteve resposta. O telefone permanecia sem sinal.
Ele passou a ser mais emocional. Seu círculo de amizades aumentou. Poderia agora contar aos novos amigos sobre sua única aventura vivida e suas expectativas para o futuro. Já não era mais tão rígido com seus horários e rotina. Tornara-se uma pessoa mais leve.
Ela, fora abatida por um trágico acidente de trânsito ao retornar para casa.
Ele nunca ficou sabendo.
Todas as noites ao deitar, ele perde o sono imaginando como será o próximo encontro.
E até hoje, telefona para um celular sem sinal e envia e-mails sem receber resposta.


André de Moraes – 03/02/2008