segunda-feira, 6 de outubro de 2008

HOJE

Acordo com o som da minha voz chamando meu próprio nome no ouvido. Abro os olhos ainda noite dentro de meu apartamento. Dia lá fora. As pessoas transitam frenéticas embaixo do sol, vulneráveis... Eu, dentro de minha fortaleza, meu centro, minha paz.

Sanduíche de presunto e queijo quente, raio de sol na persiana, cheiro de sossego com leite, desejo de permanecer mudo durante o dia. Vontade de casa. Idéias matinais, reflexos do sono...

Levo o corpo até o chuveiro, água morna. Boca na pia, olhos no espelho. Escova de dente, água fria. Já não sou o mesmo. Aroma de café quente, sabor da luta.
Desodorante roll-on, perfumes artificiais. Perfume traz boas idéias, boas sensações... Boas lembranças. Vontade de estar sempre assim, perfumado. Vontade de arrumar a casa. Passo o pano, varro o tapete, limpo a pia. Idéias de progresso, de liberdade. Limpeza traz bons fluídos. Fluídos de evolução, de sair à rua e vencer.

Sair à rua e vencer?

Saio. A rua me vence, recordo dos tempos de fila do buffet do meio-dia. Hora do intervalo, vinheta do noticiário do almoço. Homens de gravata falando de motivação, trabalho em equipe, metas, comentários sórdidos sobre o “patrimônio” da tia do puteiro da moda. Mulheres falando em liberdade, conquista do poder, traição, o quanto sabem administrar emocionalmente as suas filas que andam. Frustrações quase explícitas em diálogos vazios...

O sol me salva. Respiro e me transponho. Saio e vou para o mar, para a serra. Pego o avião e o barco. Ouço o vento cantando nos meus ouvidos e um estrondo de buzina de automóvel que me avisa onde estou. Um alerta! Fique aqui:
Olhe para os lados, esteja atento. Leia os jornais, vote consciente, cuide da saúde, economize, pague o doc na data do vencimento, faça academia, faça silêncio depois das dez, se beber não dirija, tenha fé, leia “O Segredo”, não reaja aos assaltos, mantenha distância, mantenha paz, seu coração merece, conheça as leis, doe seu lugar para os idosos, seja caridoso, doe sangue, não se atrase, o tempo voa, invista, insista, não desista, atravesse na faixa, desligue o gás, não esqueça as senhas, não fure a fila, vacine-se, previna-se, use camisinha, desligue o celular, mantenha o celular ligado, anote para não esquecer, seja profissional, não seja fraco, a vida é dura e curta.

Seja...
Feliz...

Antes que alguém me aborreça, corro pra casa procurando uma distração. Não quero anotar nada, tampouco ouvir qualquer vocativo.

Chaveio a porta, desligo o celular.

domingo, 5 de outubro de 2008

Morphina

Hoje acordei sem nada,
Não me doíam os olhos, nem a cabeça.
Nem um cheiro era percebido pelas minhas narinas
Não senti saudades de ninguém nem de mim
A fome não me perturbou
Nenhum sentimento me distraiu
E aqui na cama permaneci de olhos abertos e cegos
Sem que isto me causasse algum desconforto.

Uma pequena história de carnaval

Ele, o sossego em pessoa. Regras da rotina cumpridas com rigor. Poucos amigos, família pequena.
Ela, espírito fugaz, ágil, ativa e sociável. Muitos amigos e família com características italianas.
Ele era duro. Embora jovem, sabia medir cada palavra e cada ato era meticulosamente pensado. Sua educação e pontualidade ultrapassavam o padrão europeu.
Ela, com a sua alma latina, impulsiva e emocional, não conseguia conter qualquer pensamento que quisesse se manifestar.
Ele morava só, vivera apenas um noivado morno que durara pouco mais de um ano.
Ela, embora com quase trinta anos, ainda dividia apartamento com amigas e tivera alguns namorados, mas nunca se apegara a nenhum.
Ele havia decidido tirar férias em fevereiro para finalmente conhecer a Bahia. Reservara um quarto numa pousada em Arraial d’ajuda onde passaria o carnaval.
Ela juntara uma turma de amigos para passar suas férias transitando pelas mais belas praias da Bahia.

Trocaram olhares em um dos quiosques de beira de praia no Arraial.
Ao som das batidas dos tambores e da alegria da folia, ele, impulsivamente secou um copo de caipirinha e foi em direção à ela. Sem medir palavras nem atos, agiu, pela primeira vez na vida, com um instinto primitivo que antes jamais teria experimentado.
Ela gostou.
Seguiram juntos despretensiosamente durante os próximos dias.
Ele experimentou banhos de chuva, mergulhos noturnos e os maiores excessos que se pode cometer no carnaval.
Ela deixara a turma de amigos seguir viagem e se mudara para a pousada onde ele estava.
Foram dias intensos onde quase não se dormia.
Ele e ela cometeram todos os atos que o amor pode permitir em um curto espaço de tempo.
Trocaram contatos. Combinaram o próximo encontro.

Ele voltou para São Paulo na quarta-feira de cinzas.
No outro dia ela chegaria em Brasília.
Ele tentou por alguns meses contato por e-mail, mas não obteve resposta. O telefone permanecia sem sinal.
Ele passou a ser mais emocional. Seu círculo de amizades aumentou. Poderia agora contar aos novos amigos sobre sua única aventura vivida e suas expectativas para o futuro. Já não era mais tão rígido com seus horários e rotina. Tornara-se uma pessoa mais leve.
Ela, fora abatida por um trágico acidente de trânsito ao retornar para casa.
Ele nunca ficou sabendo.
Todas as noites ao deitar, ele perde o sono imaginando como será o próximo encontro.
E até hoje, telefona para um celular sem sinal e envia e-mails sem receber resposta.


André de Moraes – 03/02/2008

Um Brinde!

Celebremos a busca da verdade,
Fim das ilusões.

O triste ocaso da morte
do sonho etéreo.

Celebremos os encontros efêmeros
E os desencontros turbulentos.

O fim dos dias mornos de tédio
E das noites frias de agonia.

Celebremos a canção não ouvida,
A palavra calada,
O momento não chegado.

Celebremos o amor avesso...

A raiva contida.
A mágoa afogada.

Celebremos o egoísmo tanto
que rompe o laço.

Celebremos a dor e o pranto
que dilacera o baço.

Celebremos a página branca
que aguarda o traço.

E num piscar de olhos,
Celebremos o seu oposto, nascente e puro.
Aquele que dissolve o ego.

Uno de dois seres distantes.
Precursor de um tempo cego.

André de Moraes – Fevereiro de 2007

Fênix Metropolitano

FÊNIX METROPOLITANO

Diante de tantos absurdos existenciais

Diante de tantas piadas dos Deuses

Diante de tantas armadilhas do destino

Diante de tantos pensamentos lisérgicos

Diante de tantos desejos utópicos

Diante de tantas realidades possíveis

Diante de tantas emoções efêmeras

Diante de tantos instantes eternos

Diante de tantos devaneios coletivos

Diante de tanta poesia confusa

... fora de mim me vejo

Imerso num furacão

Perdido no caos

Procurando o céu

Procurando o ar

Renascendo lentamente

Emergindo poeticamente

Da cinzas urbanas

Rumo a um paraíso psíquico

De vidas possíveis

André de Moraes --- 13/07/2004

Leis de André

Amar a Vida !!! Sentir os odores, sabores, sons e cores do mundo. Sonegar os limites "impostos". Beber de todos os vinhos para viver a embriaguez e a ressaca. Provar tudo que a natureza oferece e (quase) tudo que o homem transformou. Assassinar o que o passado cristalizou para gestar o novo. Amar a todos que sofrem pela inquietude do desejo de criar, inovar e brilhar. Pisar na hipocrisia, na intolerância e na miséria com a força de um guerreiro e a inocência de um palhaço. Usar a arte e a criatividade para mudar o mundo pagando o preço necessário para isso e sabendo que é exatamente isso que o mundo precisa de nós.