segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Crônica sobre a sincronicidade dos jogos de azar e a sorte de Ana Luíza.

Ana Luíza não sabia mais o que fazer. Após três anos desempregada, já não conseguia mais sustentar os seus trinta gatos. Vivera durante os últimos anos dos aluguéis de três pequenos apartamentos que acabara de perder em dívidas de apostas em jogo do bicho e rodadas de baralho regadas a muita cachaça. Também se viciara em apostas de corrida de cavalo e rinhas de galo. A jogatina a arruinara. A cada mês morriam alguns gatos por falta de ração e vacinas. Sua família não a procurava mais. Nem Augusto, seu mais fiel amigo e confidente lhe poupou: escafedeu-se!
Ana Luíza morava numa pequena casa, a última maloca da rua da sorte, número 133. Seu pátio era o matagal que antecipava o precipício do morro. Sim, ela morava no morro. Subira o morro por opção. Embora tivesse sido proprietária daqueles três apartamentos muito bem localizados na cidade, só no morro poderia criar seus gatos e fazer as suas apostas sem se preocupar com as fofocas da vizinhança.
Foi em agosto, mês em que a sua ruína se estabeleceu, que aconteceu um fato inesperado: morreram, numa tacada só, 23 gatos. Nesta mesma noite, Ana Luíza havia sonhado com gatos, galos de rinha e cavalos de corrida. Além disso, percebera que a soma dos algarismos da casa era igual ao número que restara de gatos vivos e que o nome da rua onde morava era muito inspirador para uma aposta expressiva.
O leitor deve estar pensando que Ana Luíza correu para o jogo do bicho para fazer uma aposta milionária e ganhou o prêmio que resolveu a sua vida...
Não, não foi nada disso que aconteceu. De fato, ela reuniu tudo que lhe restara de dinheiro, números e dados suficientes para apostar. Porém, ao sair de casa e abrir a caixa de correios, se deparou com um telegrama do seu banco informando que havia sido depositado na sua conta a considerável quantia de três milhões de reais. Ana Luíza correu ao banco. Ninguém, do caixa ao gerente, soube lhe informar sobre origem do depósito.
Até ontem Ana Luíza não sabia se tinha sido erro de sistema, alguma herança de um membro distante da família ou mera obra da sorte. O fato é que resolveu todos os seus problemas. Tratou os gatos, reformou a casa, comprou três bons apartamentos para alugar, aplicou na bolsa e voltou a jogar. Até que hoje de manhã tocou a sua campainha. Ana Luíza arredou discretamente a cortina da janela. Era o seu amigo Augusto. Estava vestido de branco e trazia nos braços um gato preto. Pensou: seria Augusto um novo milionário autor de tamanha caridade, ou apenas o amigo mais interesseiro?
Ana Luíza decidiu não atender.

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